CAVE abandonado para virar negócio, fraudes bilionárias e marketing milionário: o método Ibaneis–Celina em ação

 




No Guará, o abandono tem endereço fixo, data de nascimento e nome próprio. Chama-se CAVE – Centro Administrativo Vivencial e Esporte, inaugurado em 1978, concebido como um dos maiores complexos públicos de esporte e lazer do Distrito Federal. No centro desse território está o Estádio Antônio Otoni Filho, com capacidade para 22 mil pessoas, cercado por ginásio, kartódromo, clube de vizinhança, teatro de arena e áreas esportivas. Um equipamento público pensado para servir à coletividade. Hoje, serve apenas como ruína oficial do descaso estatal.

Enquanto o Estádio Otoni Filho apodrece fechado, o Banco de Brasília (BRB) segue firme em outra arena: a do marketing esportivo nacional. Desde 2020, o banco público já despejou mais de R$ 200 milhões no patrocínio ao Flamengo. Só entre 2020 e 2023, foram cerca de R$ 153 milhões. Em 2024 e 2025, o contrato vigente prevê algo em torno de R$ 40 milhões por ano. Agora, em meio a uma crise institucional grave, marcada por questionamentos sobre governança e pela controversa operação envolvendo o Banco Master, o BRB negocia um novo contrato que pode chegar a R$ 150 milhões por mais três temporadas — algo próximo de R$ 50 milhões por ano.

É aqui que a política pública abandona qualquer disfarce e assume o deboche.

Não há recursos para reabrir um estádio público no DF, mas há centenas de milhões para estampar camisa. Não há orçamento para recuperar o CAVE, mas sobra caixa para manter presença em rede nacional. Não há pressa para devolver esporte, lazer e saúde preventiva à população do Guará, mas há velocidade para assinar contratos de marketing dignos de banco privado.

O Estádio Antônio Otoni Filho, capaz de receber 22 mil pessoas, está em ruínas há anos. O ginásio apresenta telhado comprometido e fissuras estruturais. A pista de skate virou risco. O complexo inteiro foi empurrado para a degradação planejada, estratégia clássica do poder público: abandona-se primeiro, privatiza-se depois. A chamada PPP de revitalização surge não como solução, mas como chantagem institucional — ou aceita-se a concessão, ou aceita-se a ruína.

O próprio Governo do Distrito Federal admite o valor estratégico do espaço ao aprovar o parcelamento do CAVE em 20 lotes, sob o discurso de organização do uso do solo, melhorias viárias e preservação de equipamentos públicos. O paradoxo é grotesco: o Estado reconhece a importância do território, mas se recusa a garantir sua função social enquanto ainda é público.

Enquanto isso, os Centros Olímpicos e Paralímpicos do DF funcionam no limite, atendendo dezenas de milhares de pessoas com orçamento apertado, manutenção pontual e demanda reprimida. Quando o esporte é de base, comunitário e invisível para a TV, ele sobrevive com migalhas. Quando é futebol de elite, vira prioridade absoluta — mesmo custando centenas de milhões aos cofres de um banco público.

Os defensores do contrato repetem a ladainha do retorno financeiro, da expansão da base de clientes, da estratégia de mercado. Tudo muito moderno. Tudo muito corporativo. Tudo absolutamente incompatível com a função social de um banco público distrital. O BRB não foi criado para competir em vaidade com bancos privados nem para financiar espetáculo esportivo de elite. Foi criado para financiar desenvolvimento local, políticas públicas e direitos básicos.

Mas direitos não rendem manchete nacional. Estádio público não vira VT. Piscina comunitária não gera engajamento. O Estádio Antônio Otoni Filho não aparece no Maracanã, não vende cartão, não gera slogan. Por isso, pode esperar. Pode ruir. Pode virar maquete de PPP.

No fim, a equação é simples e brutal:
mais de R$ 200 milhões já gastos em patrocínio ao Flamengo; até R$ 150 milhões a mais em negociação; e zero reais visíveis para devolver o CAVE e o Estádio Otoni Filho à população.

Entre arquibancada vazia no Guará e camisa patrocinada no Rio, o governo já escolheu seu lado. E definitivamente não foi o do esporte público, nem o da comunidade, nem o do direito à cidade. Foi o da vitrine.

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SICREDI